sexta-feira, 27 de setembro de 2013

A Mulher

Como são igualmente belas as mulheres adormecidas por uma picada de roca de tear
ou adormecidas por facas quentes, olhares espantados de estrelas acompanhados de silêncios mortíferos. Como são mágicas as filhas da lua e da terra, as amantes do vento e do mar. Como é possível olhar-se a lua e não sentir ciúme? Como é possível abraçar o vento sem dor? E o mar sem se ser narciso?
Nós somos as ciumentas filhas da lua, as amantes obsessivas deixadas pelo vento, as altivas engolidas pelo mar.
Somos quem chora de prazer. Mil mares se vêm. Dentro de nós mil mares se vêm.
Somos as mães umas das outras. Somos as filhas umas das outras.
E todas as filhas que tive não hesitaram em tentar matar-me e eu não hesitei em tentar matá-las
Corpos cheios. Peles e almas cristalinas. Sangue sem caminho.
.

Somos as vidas e as mortes. O metal podre no ventre.
Mulheres. Um plural ofensivo. Eu atreveria-me a dizer que só há uma mulher no mundo.
Irei morrer, e só eu saberei se fui ou não essa mulher.                                                                         Quando a lua me abandonar. Eu serei essa mulher.
Quando o vento se sentir preso. Eu serei essa mulher.
Quando o mar me odiar. Eu serei essa mulher.
Porque só quando matar a filha e a mãe que há em mim é que serei essa mulher.


Há assim olhares tão tristes, tristezas tão internas.
Mil mares se vão.
Mil mares se vão.

Uma mulher se vem.