quinta-feira, 17 de outubro de 2013

As escrituras das coisas

Eu dizia o teu nome, e entre a madeira das coisas O som ecoava-se e elas estremeciam. Os ossos de todas as coisas estremeciam, Quando o meu olhar se vidrava e eu pensava na beleza das coisas. E tocava nas coisas, oh, se tocava. As grandes melodias da vida não tinham sequer um início,
- Não é por isso que deixaram de ser intemporais.

Houve dias em que ouvi dizer que havia um tempo, Mas eu sei que é nesse tempo, que existe uma criança presa a tecê-lo, - Uma grande vida desperta acerca da eternidade. Que é nesse tempo que o céu e o mar se tocam, E que, por detrás do manto, está outra criança a uni-los. - Uma grande vida motora da força. Água a dentro das coisas. Mais água a dentro das coisas!

A vida é mais poderosa que tu. A morte é mais bela que tu. As vezes que foste mãe e pai das coisas, Serão as vezes que Irás ser filho. 
Ninguém te acolheu. Nunca fomos filhos de nada: Foi tudo só um amor no seio da morte. Um ódio crescente no corpo. Desatem as crianças, senão tudo desvive. Oiçam os nomes delas: 
As escrituras mais belas das coisas.

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

A Mulher

Como são igualmente belas as mulheres adormecidas por uma picada de roca de tear
ou adormecidas por facas quentes, olhares espantados de estrelas acompanhados de silêncios mortíferos. Como são mágicas as filhas da lua e da terra, as amantes do vento e do mar. Como é possível olhar-se a lua e não sentir ciúme? Como é possível abraçar o vento sem dor? E o mar sem se ser narciso?
Nós somos as ciumentas filhas da lua, as amantes obsessivas deixadas pelo vento, as altivas engolidas pelo mar.
Somos quem chora de prazer. Mil mares se vêm. Dentro de nós mil mares se vêm.
Somos as mães umas das outras. Somos as filhas umas das outras.
E todas as filhas que tive não hesitaram em tentar matar-me e eu não hesitei em tentar matá-las
Corpos cheios. Peles e almas cristalinas. Sangue sem caminho.
.

Somos as vidas e as mortes. O metal podre no ventre.
Mulheres. Um plural ofensivo. Eu atreveria-me a dizer que só há uma mulher no mundo.
Irei morrer, e só eu saberei se fui ou não essa mulher.                                                                         Quando a lua me abandonar. Eu serei essa mulher.
Quando o vento se sentir preso. Eu serei essa mulher.
Quando o mar me odiar. Eu serei essa mulher.
Porque só quando matar a filha e a mãe que há em mim é que serei essa mulher.


Há assim olhares tão tristes, tristezas tão internas.
Mil mares se vão.
Mil mares se vão.

Uma mulher se vem. 

domingo, 18 de agosto de 2013

E é por isso que te abandono.
Onde eles estavam?
 Quando, como duas crianças ciladas,
 Zelávamos em nós a perpetuidade do destino?
 Ver os primórdios da benevolência das nossas almas...
Tornarem-se numa violência conflagrada dos nossos espíritos.

É por isso que me despeço. 
Até podia sucumbir e fenecer tudo em mim.
Nunca o meu espírito jogará a servidão e a soberba.
Morre em mim. 

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Resta-nos:
Sombras e silhuetas,
Nas ruas e nos campos da morte.
Sangue e cadáveres,
No silvo e nos ruídos do vento. 


terça-feira, 6 de agosto de 2013

Escuro Azul

É noite de vigília. 

O Vento talha os corpos
Nas sombras devassas da escuridão.
Os devaneios zelam-nos a alma,
Em pequenos presságios,
Enquanto se safra a alma no meio das arenas.

Estorvam-se as palavras, 
Como quem se aprisiona nas pedras que atira ao mar.

-Presos e hirtos no tempo,
Rudes do peso do sopro, 
submergem do soçobro azul.-

Amarrados à flor da idade da criatura,
Lá os encontro - Penhascos imóveis cobertos de musas.
Cantando o alento sórdido e belo, desgosto,
Entre os confins e o além-túmulo da criação.

segunda-feira, 29 de julho de 2013

Alma inópia

Em todas as curvas do corpo se criam os abismos da alma.
Onde a harmonia tira prazer do tumulto e do silêncio.
Na deserção de tudo,
Nós, tão pequenos.
Envoltos no desconhecido,
Com tantas armas para romper o medo,
Cedemos todos os nossos desejos aos abismos,
Enquanto vazamos as curvas do nosso corpo.


sexta-feira, 26 de julho de 2013

A minha casa

Chega a noite.
O atrito instala-se nos nossos corpos - Sinto-me devoluta e residente de mim mesma. A madeira da minha casa estala e os meus ossos estalam ao seu ritmo. Somos um só. Num só acto.
 Gostava de puder capturar e enjaular todos esses instantes e mandar-me às feras eternamente. A nossa existência é agora um alívio mórbido e belo, sem pesar. Tanto tempo a dissipar sensações em pensamentos, quando a magia sempre nos teve patentes. Tudo dimana-se dos nossos corpos enlevados. É então que os meus pensamentos saem de mim, lutam no espaço, com artilharia e fúria, até se matarem mutuamente e serem só amor e ódio estendidos no chão.


quinta-feira, 18 de julho de 2013

pulmões de terra




Ando eternamente sobre o sangue
E se a terra que piso não me respira,
Respiro-a eu, enquanto desejo tudo,
Sem assinar o chão onde me difundo.

Oh terra,
Onde a mentira nos toca e a verdade nos esfola,
E onde toda as raízes nos comem os ossos.
- Eu fico à porta. E sem resposta.
Vou-me embora, fechando os olhos.

A vida,
A morte.
Pudesse eu viver e morrer entre elas.
Pintá-las nuas e fundi-las,
Na frágil tela do meu corpo.


quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Celebrar a vida

No limiar da existência verei todos os vossos corpos dançarem. Balançando-se no silêncio, teus frágeis corpos esventrados de dor sorriem-me cada vez mais intensamente. Contemplo-os a todos. E lentamente o meu corpo é puxado e  movido naquela dança.
Estamos a viver. Estamos a dançar a vida.
Outrora como me fizeram, sorrio-lhe e puxo-o. Movimentando-me em passos lentos, digo com algum espaço de silêncio e um certo nada entre as palavras, enquanto a minha voz meio sádica caminha: Amor vem comigo dançar, quero mostrar-te o quanto a vida é linda.

A casa

Pisamos todos os vidros que partimos e escorre, saltamos todos os andares que subimos e o sangue escorre, cortamos todas as veias que temos e ele escorre. E nós? Jamais escorreremos com ele.

Estava-mos a ver as estrelas. Estava deitada. O céu estava escuro e calado. Para onde quer que o meu olhar fugisse só se via aquele belo eco do universo. Será que alguém está a sentir o mesmo que eu? - pensei. Sem dúvida eles riam, admiravam o céu e falavam, mas não estavam serenos e calados como o momento exigia. Ainda pensei em pedir-lhes silêncio e chamar a atenção para o que tinham a cima das suas cabeças, mas todas aquelas estrelas mantinham-me em êxtase, penetravam-me a fala e o olhar. Falar parecia-me agora inútil.
Senti que estava onde devia estar e embora me custasse a crer, eu pertencia ali. E tinha sempre pertencido. Senti-me pequena, insignificante.
Era confortável e perturbante, na realidade.

A vida está demasiado feita ao nosso tamanho. As portas por onde passo estão feitas para eu passar. As escadas que subo estão feitas para eu as poder subir. As cadeiras onde me sento, a roupa que eu visto, a cama onde me deito, as garrafas que eu agarro, está tudo feito ao tamanho do homem. Sem nos aperceber-mos, achamos-nos enormes e poderosos. Mas, quando vemos as estrelas e toda aquela escuridão, todas essas proporções, distâncias e tamanhos perdem sentido. Sentimos uma pequenez humana tão forte, que ao voltar para este urbanismo mecânico e tecnológico qualquer sentimento de grandeza nos parece ridículo.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Às puras pessoas


Temos uma certa tendência a dar valor demais ao apego quando, na verdade, as mais puras pessoas criam-se a si próprias nos pequenos detalhes da vida. Jamais algum homem fez algo sincero em prol da humanidade, ou em prol da sua própria evolução espiritual, sem antes fascinar-se com o misticismo e com a magia que existe em encostar-se a uma árvore.

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Fraternidade

Ele era profundo. A sua postura calma e serena ditava-lhe a alma.
Eu sentia-me perdida na sua profundidade. Apetecia-me dissecar-lhe o espírito. Encarnar e fundir-me nele apenas para o sentir.
Honrei-o sem o conhecer. E sem o amar, tornou-se mais um dos meus amantes.