sábado, 1 de fevereiro de 2014
pardal
não existe expressão que expresse o quanto a alma vive. O quanto a alma sente. Dou por mim a sentir que só sinto quando estou só. E quando olho um rio correr, um pássaro voar, um sol erguer-se, que sinto que sou sentida. Uma das coisas que acho que aprendi ao viver, é a de que nunca se é sentido, um pássaro só me acolhe porque nunca me viu voar, um rio porque nunca me viu fluir e um sol porque nunca me viu clarear nada. Curiosamente, os homens nunca poderão entrar dentro de mim como um pássaro entra. Nunca poderão decifrar uma alma enquanto as suas próprias almas forem o símbolo de terem uma. E eu nunca poderei decifrar uma alma enquanto ela não se expressar livre.
Livre, a liberdade se ser-se somente o que se é, sem rosto, sem vontade, sem destino. A liberdade de se ter morrido. De se ter encostado a uma árvore e ter-se sido uma árvore. E de se ter visto a terra como um inferno.
(As árvores contaram-me que gostariam de crescer um dia nas nuvens, e que o vento lhes prometera isso. Contaram-me que odiavam a terra, e a água.
E nós que amamos a terra por nos dar árvores, e a água por-lhes alimentar.)
A liberdade de se ter imaginado tudo. De se ter provocado sentimentos no corpo, e mesmo assim se ter sentido vivo por um só segundo. A liberdade de nos esquecer-mos que morremos. A liberdade não é mais do que ela é. A união entre a morte e a vida. O limbo, o segundo em que se adormece e se acorda em simultâneo. Tudo o que fiz na vida vida foi isto, foi imaginação. Mentir, é desta maneira que minto. E talvez seja através desta mentira que vivo. Nunca fiz outra outra coisa senão prender o meu olhar morto ao pássaro que voa, e fingir que ele me disse o que é voar.
um corpo
A passagem da vida e da morte
Da data e do recinto,
Quero ver-te trocar de pele,
Renasceres num corpo, em marés.
Em afogo de palavras,
De coisas.
Quero ver-te vestir o sangue dos mortos.
Passar os portões da morte,
E sorrir-te a dentro de mares azuis.
Não sei o que é o mundo.
Eu diria:
Um corpo.
O meu corpo.
Da data e do recinto,
Quero ver-te trocar de pele,
Renasceres num corpo, em marés.
Em afogo de palavras,
De coisas.
Quero ver-te vestir o sangue dos mortos.
Passar os portões da morte,
E sorrir-te a dentro de mares azuis.
Não sei o que é o mundo.
Eu diria:
Um corpo.
O meu corpo.
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