Talvez me tenha caído uma maldição
Que me impede de navegar na vida,
De interagir com ela, como a toda a gente parece natural em interagir.
Como eu gostava de ter mais sabedoria.
Por vezes, a verdade confunde-me
E eu sinto que me falta algo essencial,
Que me falta algo que precede a vida.
Eu finjo, pois ninguém merece carregar as minhas trágicas dores que, tantas vezes, me parecem ridículas, até infantis.
E, de tão dolorosas que são, acho que todos as preferem recalcar,
Ao ponto de serem, de facto, ridículas.
Finjo que sei o valor da vida,
Mas há sempre algo que me denuncia:
Um olhar pouco vívido.
Uma vontade de me sacrificar completamente.
Uma vontade brutal de me entregar, não por amor, mas por um cansaço antigo.
Uma descrença latente e um fatalismo nos meus olhos. Só os meus semelhantes me compreendem, os outros apenas se assustam ou se intrigam. Mas com um interesse que me dá repulsa e do qual prefiro não falar.
Talvez esteja apenas demasiado assustada.
Talvez esteja só irreversivelmente descrente.
Talvez me tenha escavado a mim mesma, na esperança de um tesouro,
Do ouro dos alquimistas, e tenha apenas encontrado
O enxofre frio e pútrido. Pronto para entrar em reação.
À superfície, sinto-me inapta, pois a minha alma é pesada
E gosta de se afundar.
Um dia tudo vai acabar, eu sei, eu sei —
Digo a mim própria para me consolar.
Esse destino é realmente inevitável e natural. Mas isso não me faz sentir mais viva.
Mas não sei por que razão a minha alma insiste em resistir.
No fundo, eu sei que estou a fazer uma força tremenda e invisível para mantê-la.
E , por vezes, parece quase natural continuar a fazê-lo.
Há algo de bonito na vida, eu sei, eu sei. - dizes-me tu para me consolares.
Finjo o sucesso do teu consolo e concordo contigo. Afinal ninguém merece as minhas dores ridículas. Nem a minha ingratidão. Mãe, ao menos contigo, consigo rever a inocência que eu perdi. És incrivelmente bonita ignorante. Não me entendas nunca, gosto de ti assim; mais viva que eu.
Deste a vida a uma alma que se calhar não queria uma; mas isso ficará um segredo só meu. Secretamente eu sei que também preferias não me ter tido. Mas agora que cá estamos, sabemos ambas que foi inevitável.
Hoje olho os teus olhos, com a maturidade que me salvou da revolta e sei que a vida, ainda que incompreensível e absurda, consegue ser brutalmente bonita, afinal. Mãe, tu és tão bonita afinal.
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