domingo, 18 de novembro de 2012

A nossa pele

Sinto os maxilares presos. E parece que a minha pele levantou uns três centímetros do meu corpo. Alguém me diz para me manter calma, e nesse momento sinto a mão tremer, como se algo em mim, inconscientemente, desobedece-se imediatamente.
Nunca tinha visto nada assim. Já tinha imaginado, de facto, mas nunca a imaginação foi tão vivida como ali.
Os nossos olhos tremiam, como quando os fechamos e sonhamos, mas estes estavam bem abertos. Eles estavam abertos!
- Bem abertos! - pensei eu.
 Cada vez parecia que a minha pele se afastava mais do meu corpo.
Uma mulher grita, ela não pára de gritar, desde o inicio que ela não parou de gritar. O seu grito já se tornou tão banal à nossa audição, que é como se ela ali não mais estivesse.
Começámos a desconfiar uns dos outros, isso é certo. Será que alguém ali desconfiou de si próprio?
Estávamos numa sala de espelhos, sem espelho nenhum. Seja qual fosse o sitio para onde o meu olhar fugia, não conseguia fugir daquelas imagens.
Estavam todos agora à minha volta, à espera de não sei bem o quê.
A mulher não pára de gritar! 
Pedi-lhe que se calasse, mas a minha voz foi imediatamente diluída no seu grito.
Calei-me portanto. Não havia mais nada a fazer.
A minha pele estava demasiado afastada de mim. Foi então que todas as peles naquela sala se soltaram dos seus corpos, e se encarnaram nos corpos uns dos outros.
A pele dele apertou-se ao meu corpo, e foi aí que senti amor.
Amor por todos aqueles que ali estavam.
Tínhamos agora percebido que estávamos todos na mesma situação. Não havia nada a fazer.
 Em silêncio apenas ouvíamos o grito, e na verdade admirava-mo-lo. Também nós gostaríamos de estar a gritar. 
- Amor, pára de gritar - pediram-lhe. E de repente o silêncio manifestou-se da maneira mais bonita que podíamos alguma vez ter sentido, continuamos em silêncio, a vê-la gritar.




Nenhum comentário:

Postar um comentário