sábado, 23 de agosto de 2025

Lembrar o tanto que se esquece

Trago-te comigo, tens sido a minha companhia, tens-me carregado nos teus braços como um cadáver. Temos bebido e dançado juntos, e os nossos espíritos têm-se unido como as árvores e misturado como as águas.

 Brevemente serão um só.

Mas hoje, hoje carrego-te eu nas minhas costas, como um filho. Carrego-te como se fosses uma criança expectante, que vê tudo pela primeira vez. Sinto o teu medo, o teu temor nas minhas costas; sinto também a alegria que nasce em ti ao descobrires que estás vivo.


O teu mundo ainda não tem palavras, não existe nenhum tipo de tempo: estás isolado numa realidade só tua. Tão única e frágil. Mas o teu futuro é mais meu do que teu, o teu passado está mais na minha mente do que na tua. Mas o Agora, esse é eternamente teu.


Olhas-me com os teus olhos vivos, e tudo o que consigo sentir é dor, porque, na verdade, esse momento que é teu não será de ninguém; nem mesmo teu poderá ser. Lentamente irás esquecer-te da magia das coisas, lentamente tudo se tornará mais longínquo  e a tua memória apenas conseguirá lembrar um fragmento. 


Como se aquele instante não tivesse sido realmente teu, como se tu não tivesses estado lá todo o tempo. Será um lembrar de um lembrar. E sabemos hoje que se lembra o tanto que se esquece. 

Mas agora estás aqui. Agora e só agora o tempo é teu. 

Muros

Não olhes para mim,

Eu que nunca me despi para ninguém, 

Julgo ser apenas para ser vista de longe 

Não de perto,

Ou pelo menos foi assim que a vida me quebrou. 


Só sei despir roupas,

Enquanto me beijas é fácil deixar cair as roupas, 

Mas não me saberei despir se me olhares nos olhos,

Só sei mostrar os meus olhos tímidos, 

E o meu sorriso triste, 

Os meus ombros altos 

E os meus decotes retos


De perto verás que a minha mandíbula é tensa, 

E que o meu olhar é desconfiado, 

E que os meus lábios estão secos 

E o coração está cortado.

E que tenho muros - tantos quantos puderes imaginar

E que não te deixarei passar. 


Não me olhes mais assim.

Pois eu quebro em pedaços e fujo  

E tu não terás remorso, 

E eu não serei capaz de voltar 

E ficarão pedaços de mim no chão…


Mas tu não tens pena de mim, pois não? 


Porque não vês que tenho uma alma imensa,

E que mesmo desconfiados, os meus olhos são puros, 

E que mesmo triste a minha boca é honesta

E que mesmo altos, os meus ombros são confortáveis 

E que mesmo lacerado, o meu coração é bom.


Mas tu não vês,

Os muros não são transparentes. 

E tu não nasceste para moldar a pedra. 


Tu nasceste para ver o mundo de perto. 

E eu que sempre temo qualquer aproximação. 


Mas gosto quando o teu ombro encontra o meu. E quando sinto a tua mão procurar a minha. E gosto quando a roupa cai sozinha no chão. 


Nos meus sonhos já estamos juntos,

Estes sonhos tão loucos e egoístas, 

Em que magicamente tu tens a força de quebrar muros, 

E de perto, 

Eu me deixo ser vista.