sábado, 23 de agosto de 2025

Muros

Não olhes para mim,

Eu que nunca me despi para ninguém, 

Julgo ser apenas para ser vista de longe 

Não de perto,

Ou pelo menos foi assim que a vida me quebrou. 


Só sei despir roupas,

Enquanto me beijas é fácil deixar cair as roupas, 

Mas não me saberei despir se me olhares nos olhos,

Só sei mostrar os meus olhos tímidos, 

E o meu sorriso triste, 

Os meus ombros altos 

E os meus decotes retos


De perto verás que a minha mandíbula é tensa, 

E que o meu olhar é desconfiado, 

E que os meus lábios estão secos 

E o coração está cortado.

E que tenho muros - tantos quantos puderes imaginar

E que não te deixarei passar. 


Não me olhes mais assim.

Pois eu quebro em pedaços e fujo  

E tu não terás remorso, 

E eu não serei capaz de voltar 

E ficarão pedaços de mim no chão…


Mas tu não tens pena de mim, pois não? 


Porque não vês que tenho uma alma imensa,

E que mesmo desconfiados, os meus olhos são puros, 

E que mesmo triste a minha boca é honesta

E que mesmo altos, os meus ombros são confortáveis 

E que mesmo lacerado, o meu coração é bom.


Mas tu não vês,

Os muros não são transparentes. 

E tu não nasceste para moldar a pedra. 


Tu nasceste para ver o mundo de perto. 

E eu que sempre temo qualquer aproximação. 


Mas gosto quando o teu ombro encontra o meu. E quando sinto a tua mão procurar a minha. E gosto quando a roupa cai sozinha no chão. 


Nos meus sonhos já estamos juntos,

Estes sonhos tão loucos e egoístas, 

Em que magicamente tu tens a força de quebrar muros, 

E de perto, 

Eu me deixo ser vista. 

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